O jornalista, o cozinheiro,  o costureiro 

e seu  "meretríssimo"

Debaixo de suas togas emboloradas, os ministros do STF ridicularizaram, galhofaram, zombaram da profissão de jornalista em sessão histórica nesta quarta-feira. Entre as tantas sandices que exalaram das cabeças privilegiadas dos magistrados nas justificativas de seus votos, os homens de preto que compõem a mais alta côrte do Brasil chegaram a comparar o trabalho do jornalista ao de um costureiro ou cozinheiro. Nada contra as laboriosas classes que  fazem a alegria de quem ainda pode freqüentar atelier e restaurante neste país, mas equiparar a importância dessas  profissões diante da sociedade é, no mínimo, debochar de nossa  inteligência. Em poucas horas, os morcegos da justiça, os Batmen da realidade, Jogaram no lixo a história de uma profissão fundamental para a própria existência da sociedade.  Enterraram na vala imunda da Justiça anos de estudos, de pesquisas, de construção do conhecimento na área da Comunicação. 

Com frágeis frases de efeito e retóricas típicas da magistratura, num simplismo de assustar o mais simplório dos seres humanos, acabaram com uma conquista de toda a sociedade brasileira, negando o reconhecimento de uma  profissão que mexe com  consciências e com o imaginário coletivo. Profissão essa que deveria ser tratada com um mínimo de respeito por aqueles que julgam , entre outras coisas, a profissão alheia, mesmo que não tenham  a mínima noção do que essa profissão representa para a sociedade.

Esses senhores, arautos da justiça, mexeram com a vida de milhares de jovens que buscam nos cursos de Jornalismo o conhecimento científico para lidar com o processo informativo  como deve ser tratado, ou seja, como ciência, ciência social aplicada, coisa que os ministros, ao que parece, não fazem ideia do que seja. Julgaram sem ter um mínimo de conhecimento do significado daquilo que julgaram. Sem escrúpulos e nenhum constrangimento, apedrejaram profissionais sem ter noção das graves consequências de seus atos.

Mal sabem eles que um mau jornalista pode ser mais nocivo que um mau médico, pois se o médico, ao operar uma pessoa tira o coração em vez do rim, mata aquela pessoa. Já o jornalista, ao errar uma informação, pode aniquilar uma sociedade inteira. Um mau juiz do STF pode fazer um mal ainda maior ao libertar bandidos como Daniel Dantas, como o fez o ministro Gilmar Mendes em outro ataque de ignorância explícita. É essa a Justiça , dita cega e neutra, que tem o poder de apontar como deve se fazer jornalismo neste país? É a Justiça mais uma vez a serviço de interesses escusos, irresponsavelmente alheia ao interesse coletivo.

Em nome da liberdade de expressão, o STF criminosamente tirou nada mais do que a liberdade de se fazer jornalismo responsável. Preferiu valorizar a liberdade dos empresários da comunicação, que agora podem contratar, livremente, para fazer reportagens, advogados desempregados, juízes corruptos, médicos inescrupulosos que só conhecem as viroses, e, porque não, traficantes de crack para escrever sobre esse assunto tão em moda nos meios de comunicação. Essa é a lógica.

Afinal, quem são esses senhores, que se colocam como casta privilegiada, para decidir os rumos da comunicação de um país? Melhor mesmo a deusa Themis manter a venda nos olhos, se não, é capaz de pegar a própria espada para cortar o pescoço de seus súditos e jogá-los na balança batizada.

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