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| Quarta-feira , 20 de Maio |
Ainda o nada

Por falar em branco, em nada, em vazio, esse nada acaba servindo para muito, principalmente para postar algo, preencher a página em branco e manter o blog atualizado. Muita gente nesse mundão já escreveu sobre o vazio. O vazio da existência, da criatividade, da barriga, do universo, da sala, da cama, da cadeira, das ideias, da música sertaneja, do poema rimado, do copo, do corpo, da mente, das palavras erradas, da parede sem quadro, da pasta de dente, e de tudo que se esvai por aí, não sei pra onde, deixando no ar um certo, digamos, vazio. Tem até o vazio moderno e útil, aquele da arte, por exemplo. O tema da Bienal de SP do ano passado foi exatamente o vazio. A proposta era deixar o segundo andar do pavilhão vazio. Isso mesmo: uma exposição com nada, nadica, necas. Corredores vazios. Segundo os curadores, com o objetivo de evidenciar a arte e fazer as pessoas refletirem. Bueno, a pessoa paga para andar pelos corredores vazios da Bienal de SP e depois não comenta nada. Missão cumprida. Melhor refletir pescando. Até me deu vontade de pescar, seja lá como se faz isso. Com certeza não pegaria nada. Pescaria vazia.Voltarei com algo mais concreto. Pra concluir, sem mais evasivas, e sempalavras, publico aqui um texto do Arnaldo Antunes, que tem a ver com esse assunto branco. Eu apresento a página branca. Contra: Burocratas travestidos de poetas Sem-graças travestidos de sérios Anões travestidos de crianças Complacentes travestidos de justos Jingles travestidos de rock Estórias travestidas de cinema Chatos travestidos de coitados Passivos travestidos de pacatos Medo travestido de senso Censores travestidos de sensores Palavras travestidas de sentido Palavras caladas travestidas de silêncio Obscuros travestidos de complexos Bois travestidos de touros Fraquezas travestidas de virtudes Bagaços travestidos de polpa Bagos travestidos de cérebros Celas travestidas de lares Paisanas travestidos de drogados Lobos travestidos de cordeiros Pedantes travestidos de cultos Egos travestidos de eros Lerdos travestidos de zen Burrice travestida de citações água travestida de chuva aquário travestido de tevê água travestida de vinho água solta apagando o afago do fogo água mole sem pedra dura água parada onde estagnam os impulsos água que turva as lentes e enferruja as lâminas água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções insípida, amorfa, inodora, incolor água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky água onde não há seca água onde não há sede água em abundância água em excesso água em palavras.
Eu apresento a página branca. A árvore sem sementes. O vidro sem nada na frente. Contra a água.
Escrito por Jairo S. às 20h32
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| Domingo , 17 de Maio |
Vomitando nada

Bem...agradeço a manifestação dos queridos amigos, mas é hora de encerrar o assunto, até porque, como disse o velho Mc Luhan,..."ninguém jamais cometeu erros numa sociedade não-alfabetizada". E também porque o sempalavras foi criado para ser meu "balde de vômito" (com o perdão da expressão horrorosa, apesar de eu não usá-la no sentido coprológico do termo, mas no sentido metafórico, evidentemente). Explico. Caio Fernando Abreu escreveu certa vez uma frase que marcou e colo aqui (de novo) "(...) Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta (...)" Portanto, é aqui que vomito depois de colocar o dedo na garganta. E nem sempre saem flores. A maioria das vezes, eu diria. Então, mudando de assunto, sem ter um novo que seja publicável, falarei de nada. Sim, nada mesmo, como a página em branco que sofre tanto, aquela do Leminsky que falo em aula e que já comentei aqui. A página em branco sofre pelo fato da coitada não ter nada escrito nela. Entenda-se ´página´ o papel (do tempo do bandido que sabia latim) ou a virtual, esta na qual escrevo agora, ou melhor, digitoapagodigitoapago.... para evitar o branco fatal, o delete e a não-postagem de um texto sem nexo. Dizem que o branco é a cor da luz ou a junção de todas as cores. Então, hoje estou iluminado e colorido e vou falar do branco colorido de uma página de blog que não diz absolutamente nada. O que se vê aqui, amigos, são apenas manchas, palavras que surgem do nada e jogadas num branco que grita pálido de tanto (ele, o poeta, de novo), que vão se unindo, como a juntar os tipos móveis na caixinha que formam frases a serem impressas manualmente numa página....em branco. (Ah...falarei dos tipógrafos em outra oportunidade) Mas continuemos dizendo nada. O branco tem muitos significados: pureza e paz tavez sejam os mais comuns. Dizem também que é a cor da alma, da graça, até do idealismo, das estátuas de mármore, dos aventais, da candura, da sabedoria pelos cabelos... ah, até o cavalo do Napoleão, aquele que perdeu a guerra numa posição, digamos, incômoda, dizem que era branco. Enfim, eis uma ex-página em branco.
Escrito por Jairo S. às 11h07
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