Ainda o nada

 

Por falar em branco, em nada, em vazio, esse nada acaba servindo para muito, principalmente para postar algo, preencher a página em branco  e manter o blog atualizado. Muita gente nesse mundão já escreveu sobre o vazio. O vazio da existência, da criatividade, da barriga, do universo, da sala, da cama, da cadeira, das ideias, da música sertaneja, do poema rimado, do copo, do corpo, da mente, das palavras erradas, da parede sem quadro, da pasta de dente, e de tudo que se esvai por aí, não sei pra onde, deixando no ar um certo, digamos, vazio.

 

Tem até o vazio moderno e útil, aquele da arte, por exemplo. O tema da Bienal de SP do ano passado foi exatamente o vazio. A proposta era deixar o segundo andar do pavilhão vazio. Isso mesmo: uma exposição com nada, nadica, necas. Corredores vazios. Segundo os curadores, com o objetivo de evidenciar a arte e fazer as pessoas refletirem. Bueno, a pessoa paga para andar pelos corredores vazios da Bienal de SP e depois não comenta nada. Missão cumprida. Melhor refletir pescando. Até me deu vontade de pescar, seja lá como se faz isso. Com certeza não pegaria nada. Pescaria vazia.Voltarei com algo mais concreto. 

 

Pra concluir, sem mais evasivas, e sempalavras, publico aqui um texto do Arnaldo Antunes, que tem a ver com esse assunto branco.

 

Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água.

Vomitando nada

Bem...agradeço a manifestação dos queridos amigos, mas é hora de encerrar o assunto, até porque, como disse o velho Mc Luhan,..."ninguém jamais cometeu erros numa sociedade não-alfabetizada". E também porque o sempalavras foi criado para ser meu "balde de vômito" (com o perdão da expressão horrorosa, apesar de eu não usá-la no sentido coprológico do termo, mas no sentido metafórico, evidentemente). Explico. Caio Fernando Abreu escreveu certa vez uma frase que marcou e colo aqui (de novo)

"(...) Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta (...)"

Portanto, é aqui que vomito depois de colocar o dedo na garganta. E nem sempre saem flores. A maioria das vezes, eu diria.

Então, mudando de assunto, sem ter um novo que seja publicável, falarei de nada. Sim, nada mesmo, como a página em branco que sofre tanto, aquela do Leminsky que falo em aula e que já comentei aqui. A página em branco sofre pelo fato da coitada  não ter nada escrito nela. Entenda-se ´página´ o papel (do tempo do bandido que sabia latim) ou a virtual, esta na qual escrevo agora, ou melhor, digitoapagodigitoapago.... para evitar o branco fatal, o delete e a não-postagem de um texto sem nexo.

Dizem que o branco é a cor da luz ou a junção de todas as cores. Então, hoje estou iluminado e colorido e vou falar do branco colorido de uma página de blog que não diz absolutamente nada. O que se vê aqui, amigos, são apenas manchas, palavras que surgem do nada e jogadas num  branco que grita pálido de tanto (ele, o poeta, de novo), que vão se unindo, como a juntar os tipos móveis na caixinha que formam frases a serem impressas manualmente numa página....em branco. (Ah...falarei dos tipógrafos em outra oportunidade)

Mas continuemos dizendo nada. O branco tem muitos significados:  pureza e  paz tavez sejam os mais comuns. Dizem também que é a cor da alma, da graça, até do idealismo, das estátuas de mármore, dos aventais, da candura, da sabedoria pelos cabelos...  ah,  até o cavalo do Napoleão, aquele que perdeu a guerra numa posição, digamos, incômoda, dizem que era branco.

Enfim, eis uma ex-página em branco.

 

 

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