Cena dantesca

Madrugada úmida e fria. 4h30. Eu ali, de pijama, descalço, pés na grama molhada, com uma enxada na mão correndo atrás daquele vira-latas que arrombou com os dentes a tela do muro e entrou no pátio pra traçar a Dora. Mais de meia hora durou a caçada, ao som de latidos, uivos e gritos. Até que, finalmente, encurralei o infeliz no corredor estreito do pátio. Frente a frente. Olho no olho. Ele com os dentes de fora, eu com a enxada em punho. Estávamos prontos pra batalha final: o cão com tesão contra o homem raivoso com frio, sono e puto da vida. Ambos com os dentes de fora, demonstrando toda a fúria. Nenhum passo. A ameaça se resume aos olhares fixos e aos dentes rijos dos dois combatentes. Muito frio. Ele rosnando, eu batendo queixo. Momento de tensão e de definição do combate. Ele, disposto a ir até o fim para alcançar seu objetivo. Eu, disposto a não voltar frustrado para a cama deixando aquele intruso comer minha cadela. Me sentiria o último dos homens. Olho no olho, nenhuma piscada. Nenhum sinal de respiração. Até que, num lance de fraqueza do animal, ele recolheu os dentes, baixou as orelhas e deixou a cabeça cair pro lado, tocando com aquele gesto o coração do outro animal - no caso, eu mesmo. Tive um rápido e passageiro sentimento de dó, mas resisti. Pensei: te venci na força da minha ira e com meu olhar arrebatador, cão desgraçado. Disse: te manda antes que eu te enfie essa enxada goela abaixo. Ele, intimidado, beijou a lona e saiu tão rapidamente como quando entrou, pelo mesmo buraco que fez, dando uivinhos finos. E eu, todo cheio de bossa, como quem vence uma grande batalha, voltei feliz para a cama quente. A Dora não me perdoou.
Escrito por Jairo S. às 20h50
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