Um brinde a Tarso de Castro

Nunca fui muito chegado a ler biografias, porque quase sempre os biógrafos são fãs dos biografados e o troço acaba descambando pra babação, pra rasgação de seda. Até os defeitos das figuras acabam sendo apresentados como virtudes. Mesmo assim, leio algumas, e no fim-de-semana devorei, numa única abocanhada, as 280 páginas do livro “Tarso de Castro, 75 kg de músculos e fúria”, de Tom Cardoso. Trata-se da biografia do polêmico-bebum-jornalista (quanta redundância) que, de dentro de uma garrafa de uísque criou o “Pasquim”, o “Folhetim” da Folha de S.Paulo (o melhor caderno cultural já editado pela imprensa brasileira), a revista “Caretas”, o jornal “Enfim”; reformulou a “Ilustrada”; namorou a atriz queridinha do cinema mundial dos anos 60-70, Cândice Berger (na foto ali em cima); afrontou autoridades, presidentes, governadores, ministros; conviveu intensa e intimamente com figuras de ponta da cultura nacional, como Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Glauber Rocha, Nara Leão... (leiam mais sobre suas convivências na crônica que republico ali embaixo. A falta de modéstia dá o tom de deboche com ele tratava qualquer assunto). Bebia muito, o Tarso. Que isso não sirva de exemplo aos meus alunos, mas as grandes pautas de todos os jornais que ele criou ou participou, surgiam na mesa de bar. Era uma espécie de Hunter Thompson tupiniquim. E morreu cedo, de cirrose hepática, óbvio. Pra ter uma idéia, em sua última internação seduziu as enfermeiras e conseguiu convencê-las de que era vital para ele ter duas garrafas de uísque debaixo da cama.
Tarso de Castro não poupou a vida. Sobre ele, disse Otto Lara Resende: A vida jogada fora, num gesto de desdém e rebeldia. Mas onde está a vida dos que a depositaram na poupança?”
Fica a dica de leitura pra quem quer conhecer um pouco da efervescência cultural e jornalística dos loucos anos 60-70.
Garoto de Ipanema
Tarso de Castro
Ontem eu estava pensando o seguinte: afinal de contas já li muito Proust, Kafka, Super-Homem, Tio Patinhas, Jean-Jacques Servan-Shreiber, Jaguar, a revista do Diner’s, Marcuse e tudo o que estiver na moda. Freqüento as sessões especiais do Museu da Imagem e do Som, recebo discos de Ricardo Cravo Albin, tomo caipirinha no Veloso religiosamente, dialogo no Antonio’s e janto no Mário, onde sou conhecidíssimo. Aos fins de semana tomo cerveja no Osvaldo Assef ou no Magaldi, jogo futebol com o Sérgio, namoro a Andréia (tomem nota deste nome), brilho no pôquer na casa do Prósperi, faço “surf” perfeitamente, tenho jornaleiro próprio e até já morei na casa do Hugo Bidet. Volta e meio ganho posters, quadros, enfim, artes plásticas em geral de diversas personalidades. Danço todos os ritmos, novos e velhos, sou completamente tarado pelos filmes de Carlos Gardel e Carmen Miranda. Conheço a história do cinema brasileiro, tenho especial desprezo por Sérgio Bittencourt e todos os maus-caráteres da praça, converso com o Glauber Rocha e com o Cacá Diegues – eles até me chamam de tu – e já fiz entrevista com Eliana. Além disso, conheço a Nara Leão, o Vinícius de Moraes, o Chico Buarque, o Dori Caymmi, o Capinam, o Paulo Góis, o Edu Lobo, isto sem falar no Caetano Veloso, na Gal Costa, no Manolo e muitas outras personalidades. O Zózimo Barroso do Amaral me cumprimenta, a Gilda Miller fala sempre comigo, o Tavares de Miranda me telefona de São Paulo regularmente. Conheço o Palácio Alvorada por dentro, conheço todos os ministros presentes, passados e provavelmente grande parte dos futuros, trato bem as crianças, qualquer dia vou entrar pro Rotary Club (o Lions, nunca!), compro qualquer besteira na Feira das Providências, dou natal pra todo mundo, sou o mais veemente anti-racista, tenho a coleção completa do Mad, Playboy, Lui e Gibi Mensal. Sei o nome secreto de todos os super-heróis, faço charme de acordo com o livro de etiquetas, faço a barba com lâmina estrangeira, sei distinguir um uísque do outro pelo rótulo, protestei contra o casamento de Regina Rozemburgo, freqüento teatros, cinemas, beco da fome e ajudei a fechar o Zeppelin sem pagar os últimos de Dico Vanderlei, recebo cartas de Tom Jobim, já estive com Geraldine Chaplin, conheço o latifúndio dorsal de Kim Novak. Sei a história da Segunda Guerra inteirinha, sou apaixonado pela Maria Bethânia, brigo regularmente com Carlinhos Oliveira (é só briga de amor), freqüentei a Estudantes, vi ensaios da Mangueira, falo mal de Gustavo Corção e do Nelson Rodrigues, falo sobre chimarrão com o Daniel Krieger, já entrevistei o presidente da República, amo o Garrincha e não gosto do Pelé, conheço Europa, Ásia e África, li todos os livros sobre Vietnã e vi todos os filmes de Chaplin. Além de tudo isso tenho olhos castanhos esverdeados e estou treinando karatê para brigar com o Hugo Carvana. Agora, eu quero saber do seguinte: por que é que até agora o Ibrahim não pediu minha opinião sobre as cem mulheres mais bonitas do Brasil?
Escrito por Jairo S. às 09h36
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