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| Sexta-feira , 12 de Maio |
Dando sequência ao post dramático-social anterior, republico aqui um texto do ano passado. Prometo algo mais leve no próximo.
Cleópatra às avessas

Cleópatra pode ser considerada a mãe das peruas. Tinha uma preocupação excessiva com o luxo e a vaidade. Vivia atirada pelos palácios, enfeitada com jóias feitas com as mais preciosas pedras. Apesar de extremamente sedutora, dizem que sua beleza não passa de um mito cinematográfico. Alguns historiadores afirmam que ela era muito feita, com um nariz enorme, ao contrário de suas intérpretes no cinema, como Elisabeth Taylor e Sophia Loren.
Isso na antiguidade. Na pós-modernidade ainda existem algumas "cleópatras" que ficam ostentando riqueza, vaidade e vulgaridade nas daslus da vida. Mas quero me reportar hoje a um outro tipo de Cleópatra, uma que vive aqui mesmo, pertinho de nós, perambulando a esmo pelas ruas de Pelotas. Nem jovem, nem bonita, muito menos rica. Cria do mundo capitalista, vive em trapos atirada nas portas das padarias ao final das tardes. "Uma louca", setenciam alguns apressados. "Pobre bicho", já vi alguém referir-se àquela mulher.
Um dia desses, fiquei observando uma cena real protagonizada por aquela pessoa, diante de uma padaria no centro da cidade. Fazia frio e ela estava estirada sobre um velho cobertor na calçada numa pose em que muito lembrava as famosas cenas das cleópatras dos filmes, mas, claro, às avessas. Vestia trapos mas acho que não sentia frio. Deitada de lado, pernas levemente arcadas, cabeça em pé apoiada pelo braço, a mão enrrugada segurava a face. Ria...ria muito ao observar uma cadelinha vira-lata que brincava a sua volta. Não pedia nada aos transeuntes, nem esmola nem pão.
Por alguns instantes embarquei em pensamentos diante daquela cena e tentei invadir a mente daquela velha senhora. Que mundo exterior estaria ela enxergando? Certamente um mundo muito esquisito, em que pessoas chegam de carro, entram num prédio e de lá saem com pacotes cheio de pães fumegantes e bolos coloridos. Um mundo em que todos a desprezam, a vêem como "louca". Mas, afinal, o que entendemos por loucura? Seria uma anomalia sofrida por pessoas que não conseguem viver dentro dos padrões e regras impostos pela sociedade? Ou apenas são pessoas que vivem num mundo absolutamente próprio, com um mínimo – ou nenhum - contato com o mundo concreto externo? Apesar disso, continuam vivos em seu mundo interior, dentro de padrões próprios que são simplesmente desprezados por este mundo concreto, real e cruel com seus mensalões e pães quentes.
A nossa Cleópatra pelotense passa os dias assim, desprezando os padrões de uma sociedade que a excluiu. Vive deitada a comer migalhas num velho cobertor, bem diferente daquele tapete em que a Cleópatra egípcia um dia se enrolou para dar-se como presente a Julio César, transformando-se em seguida numa rainha. Bem diferente das peruas frequentadoras da Daslu. A nossa Cleópatra nunca será uma rainha, muito menos perua. Nem quer isso. Daslu? Sei lá, talvez seja um bom nome pra cadelinha que a acompanha no frio.
Escrito por Jairo S. às 23h30
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| Quinta-feira , 11 de Maio |
Ainda tô chocado com as várias cenas que vi ontem no HPS, onde fui fazer uma matéria. A gente sabe como é o sistema de saúde pública neste país, mas quando a gente toma contato real com ela, o choque é grande.
Esse foi o texto que surgiu num jorro:
Retrato da condição humana

Uma rápida passada pelos corredores do HPS de Pelotas é o suficiente para quem quer fazer uma radiografia do sistema de saúde pública no Brasil, e também da própria condição humana. Humana? Na sala de espera, um paradoxo. Os futuros pacientes parecem torcer para serem considerados mais doentes do que os demais, pois assim serão atendidos primeiro. Falta espaço para esperar a vez. Muitos estão ali há horas, com fome, extremanente cansados e com muita dor. Dor física. Dor de ser excluído.
Na sala de urgência e emergência, os leitos estão todos ocupados por pessoas que não sabem se continuarão vivas pelo simples fato de que não podem pagar para seguir respirando. “E se chegar mais alguém passando mal?”, perguntamos. “Botamos embaixo da cama”, responde uma das atendentes do local, num tom de voz que deixa transparecer um misto de deboche com nervosismo por saber que não pode fazer nada mesmo.
Nos corredores, mais leitos improvisados com outros seres humanos aguarando uma oportunidade para lutar pela vida. Infecção hospitalar? Bobagem. O atendimento é feito ali mesmo, onde todos transitam e conversam. Mais adiante, na sala de “recuperação” (o nome da sala é irônico), um velho agoniza no chão, numa espécie de maca. “Esse aí está no fim, só estamos esperando pra liberar”, diz o funcionário. No rosto do velho, a expressão de dor, de desespero. Seu último sopro de vida será no chão imundo de um Pronto-Socorro público. A cena é um retrato vivo (ou quase) da própria condição humana, em que todos ali torcem por uma única e miserável chance de permanecer vivo, e para isso, instintivamente torcem para que um leito seja desocupado, nem que seja com a morte de quem está ali, também resistindo na batalha pela vida.
Escrito por Jairo S. às 09h51
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| Quarta-feira , 10 de Maio |
Hoje vou pedir emprestado um textinho que nasceu do TCC da Milene, sobre o filme Nossa Música, do Godard.

O filme “Nossa Música” de Jean-Luc Godard é composto de três partes: Reino I (Inferno), Reino II (Purgatório) e Reino III(Paraíso). O componente principal, e se é que se pode dizer, personagem principal é a cor.
No “Inferno” a cor é adicionada e trabalhada sempre de modo a causar estranhamento pelo uso da complementariedade e pela profusão de tonalidades. Um Inferno ao mesmo tempo Expressionista e Barroco. No entanto, é a grande variedade de fragmentos de origens múltiplas: desde o cinema mudo até imagens documentais atuais, a todo tempo interrompidas por pausas em telas pretas. Apresenta-se assim um Godard ao mesmo tempo pintor e garimpeiro.
As imagens são trabalhadas de forma digital forçando a pixelagem a “estourar”. Contudo elas são profundamente contundentes e muitas vezes chocantes: cabeças arrancadas de seus corpos, cadáveres em decomposição, enforcados, crianças famélicas, sangue espalhado a todo instante. Passando por vários fatos dramáticos da história da humanidade, o Inferno cita o atentado de 11 de Setembro e termina com a frase: Você se lembra de Saraievo?
No Purgatório o tema central é o desterro do homem pelo homem. O próprio Godard, que representa a si mesmo, diz: “O único território de um povo que ninguém pode roubar-lhe é a sua poesia.”
É aqui no Purgatório que as cores começam a se organizar enquanto chave léxica. As cores predominantes são o vermelho: nação e estado, amarelo: estruturas de reprodução social e o magenta: poesia. O interessante é que se obtém o magenta subtraindo o amarelo do vermelho, ou seja: uma nação que não reproduza as mesmas formas de engessamento social pode resultar em uma civilização mais poética.
O clímax do Purgatório se dá quando a heroína, Olga, após confeccionar um filme digital sobre a conferência proferida por Godard, viaja até Israel e com uma mochila vermelha nas costas convidas as pessoas de um café a se suicidarem com ela por uma humanidade mais pacífica. Olga obviamente não é atendida e em seguida é metralhada pela polícia israelense. Após a sua morte descobre-se que a mochila continha apenas livros de poesia. Ao tomar ciência da morte de Olga, Godard rega um jardim de flores rosas (Magenta). Olga então ascende ao Paraíso, terceira parte do filme, este é guardado por fuzileiros norte americanos. Mas Olga não se sente em paz e morde uma maçã. Esta cena marca o fim do filme.
No entanto, a pergunta que se faz logo após assistir o filme é: por quê o título “Nossa Música”? Já que componente musical não traz nenhuma novidade nem se traduz em destaque. Talvez a resposta esteja no livro: “Imagem: cognição, semiótica e mídia”. O filme como um todo, tanto quanto o filme feito por Olga numa relação de mise em abîme com “Nossa Música” é na verdade uma música ou algo muito próximo disto, pois para Santaella e Nöth as imagens digitais possuem uma tradução e organização matemática, fazendo delas uma espécie de música traduzida em código binário.
Milene Sacco
Escrito por Jairo S. às 23h40
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