 |
|
|
| Sexta-feira , 21 de Abril |
O soco do bispo pugilista

Assim como Raul Seixas, o sergipano Arthur Bispo do Rosário viu Cristo descer no quintal da casa acompanhado de sete anjos azuis. A partir daí dizia ser o próprio Jesus. Pronto. Bastou. Estava condenado a viver num manicômio até morrer. Esquisofrenia-paranóica, o diagnóstico. No manicômio, passava os dias a desfiar seu uniforme de louco e os lençóis e, com as linhas, bordava. Muito. Mantos lindos. Décadas depois, o genial Ferreira Gullar disse: "Se é um manto ou não, pode parecer uma questão sem importância. Não obstante, a designação ´manto´ encobre a natureza do arquétipo social sobre a qual Bispo do Rosário elaborou. Esta obra nasce da imitação de uma peça do estuário da nobreza: parte da roupa de um rei, ou de um general do exército real. Só o paletó interessa, pois nele se concentram os elementos simbólicos ostentatórios de poder e nobreza, como dragonas, bordados, condecorações (...) o que temos aqui é a apropriação pelo artista de um objeto-símbolo que a seus olhos traduz riqueza, beleza e nobreza”.
Quando não boradava, juntava toda e qualquer coisa que lhe chegasse às mãos para produzir peças delirantes. Chinelos, garfos, garrafas...tudo virou arte pelas mãos do louco. Peças que hoje percorrem os museus do mundo.
Antes disso, Arthur Bispo foi porteiro e guarda-costas. Ah... e pugilista também. Chegou a ser campeão latino-americano da categoria peso-leve.
Depois disso, já morto, virou moda entre os artistas, virou museu, virou tema de teses e mais teses acadêmicas, virou livro, peça de teatro, documentário, e...pasmem...até tema de escola de samba. Pior: do grupo B de Porto Alegre.
O soco do pugilista louco atingiu em cheio o queixo do mundo da arte, que beijou a lona ao cair a seus pés.
"Eu já fui transparente. Às vezes,
quando deixo de trabalhar,
fico transparente de novo.
Mas normalmente sou cheio de cores”
Nietzsche, outro “louco”, dizia que é preciso ter um caos dentro de si para dar luz a uma estrela brilhante.
O mundo ta precisando de mais gente louca.
Escrito por Jairo S. às 09h51
[]
|
| Quarta-feira , 19 de Abril |
O nosso Durval
Não tenho ouvido muita música, então leio música. Ou melhor, leio sobre. E escrevi, outro dia, uma matéria para o jornal do Sindicato dos Bancários sobre o Marquinhos da Woodstock, aquele sebo de discos encravado no centro da cidade. Sabe tudo de música, o Marquinhos. Tem em casa mais de 5 mil LPs...só preciosidades, coisas raras mesmo. Se tem dupicado (e tem muito), vende. Se não, nem morto se desfaz.
Jornalismo cantado

Falando em música, dois artistas me chamaram a atenção esta semana. Primeiro, o genial Tom Zé, que tá comemorando o trigésimo aniversário do disco Estudando o Samba considerado pelos críticos como uma das obras primas dos anos 70. Achei o máximo isso que ele disse uma vez: "Não faço música, faço jornalismo cantado". E quando pergutaram pra ele qual a música que deveria ser o hino da cidade de São Paulo, ele respondeu: "Pour Elise. Aquela que toca no caminhão do gás...afinal estou sempre ouvindo, em qualquer canto da cidade". Sem problemas, ainda mais a declaração vindo de alguém que toca um afiador de facas— na percurssão, batizada de hertzé, além de enceradeira, buzinas e outros "instruzémentos" que ele inventa. Tom Zé deve estar com quase 70 anos, e continua a reinventar-se.
Badi Assad

A outra artista que me chamou a atenção é a Badi Assad, uma puta violonista brasileira mais conhecida e reconhecida lá fora do que aqui no país tropical. Pra terem uma idéia do talento da moça, em 1998 ela ganhou o título de melhor violonista do mundo pela Guitar Player Magazine. Ela está com show em Sampa com seu violão virtuoso e sua voz incrível. E nós aqui, no fimdo mundo, vendo propaganda dos shows de pagodeiros. O site da moça é bem legal também. Dá uma olhada aqui.
Escrito por Jairo S. às 23h51
[]
|
| Segunda-feira , 17 de Abril |
Horóscopo Maldito
“Você se acha equilibrado, idealista e justo. Parece sentir a necessidade de proteger os outros e lutar contra as injustiças. Na verdade, você só pensa em si mesmo. Você é um engomadinho metido. Gosta de coisas sofisticadas e de alto nível, mas não passa de um ignorante desinformado. Nas conversas, quer falar sobre coisas intelectuais, como literatura e arte, e dificilmente entra em assuntos polêmicos. Quer ser politicamente correto. Na realidade você é um grande "fazedor de média". Isso esconde sua verdadeira cara. Dessa forma, os outros signos nunca saberão seu real interesse, que é f... os outros. Afinal, você é um teimoso, ignorante e ambicioso”.
Credo!! É isso que diz o “horóscopo maldito” sobre meu signo, Libra, que anda circulando por aí e que expõe as fragilidades de cada signo. Nunca fui de dar bola pra horóscopo, até porque nem sei direito qual é o meu signo. Quem convive comigo sabe desse meu drama pessoal que foi ter trocado de signo depois de burro velho. Mas gostei desse horóscopo maldito, que ao contrário dos tradicionais “conselhos amigos”, põe o dedo na ferida da gente. Quer saber o diz esse horóscopo sobre o seu signo? Clica aqui.
Dez anos do massacre

VERGONHA! Assim mesmo, em caixa alta e fontes enormes foi como o Jornal do Brasil noticiou o massacre dos trabalhadores sem terra de Eldorado do Carajás, em 1996, que chocou o país e chamou a atenção da mídia internacional. Lembro que foi a manchete mais fiel entre os jornais brasileiros, retratando a barbárie da polícia. Os outros jornais só deram a devida importância depois que o episódio transformou-se em pauta no mundo inteiro. Foram 19 mortos que acabaram virando símbolo da luta pela terra neste país de tanta terra nas mãos de tão poucos. Nesses dez anos, outras centenas de trabalhadores perderam a vida nessa busca por um pedaço de chão. Todos assassinos seguem impunes. Naquele dia, a polícia usou um inacreditável arsenal para acabar com uma manifestação do MST: 10 metralhadoras 9 mm; 7 revólveres calibre 38; 11 revólveres calibre 32; 66 fuzis calibre 7; 29 bastões e 14 escudos.
O meu amigo Pedro Munhoz fez essa bela canção em homenagem aos mortos:
Dezenove Companheiros Pedro Munhoz
Mal sabia quem lá estava, era a morte que rondava e um banquete preparava, para as aves de rapina. Com fuzis e carabinas, aguardava na surdina o momento da chacina que ali se desenhava.
Até hoje quem esquece, o sangue na Curva do S e o pavor de quem perece num momento como aquele? Pago com a própria pele, que aponta e nos impele que a verdade se revele, condenando quem merece.
Foi o quinto mandamento, que o cristão por juramento, respeitando o ensinamento de repente viu quebrar. Não podia acreditar que na terra de plantar, para a fome saciar, fosse o último momento.
Entoando um cantochão, surge ao longo do estradão, quem não teve extrema-unção, nem disse adeus na partida. Quem ficou sem despedida, se ressente dolorida, balas que tiraram vidas e feriram a nação.
E em plena luz do dia a queima-roupa, a judiaría, a matança e a agonia de um calvário camponês. O algoz por sua vez mente ainda que não fez, toda aquela estupidez que foi pura covardia.
Pois a vida não se encerra com sete palmos de terra, nem tão pouco se desterra em nome da impunidade. Quem tem medo da verdade não merece liberdade, a sentença dos covardes dificilmente se erra.
A historia que escrevemos aos mártires devemos, as lições que aprendemos para a luta prosseguir. Não podemos desistir, nem deixar-se iludir, pois iremos construir um país no qual queremos.
Se pergunta o mundo inteiro, vozes vindas do estrangeiro, lá do Norte brasileiro, em Eldorado Carajás. Do Estado do Pará o Brasil não calará, a justiça se fará aos DEZENOVE COMPANHEIROS!
Escrito por Jairo S. às 21h24
[]
|
[ ver mensagens anteriores ]
|
|
|