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| Sexta-feira , 21 de Outubro |
Vinte e três de dez

Tempo, tempo...quem o mede? Quanto tempo leva um ano para ficarmos mais velhos? Velho "é os trapo", dizia minha vó pegando sol na praia aos 90, com os braços esticados "pra queimar parelho". Então, não me convence esta passagem biológica. Mas também não resisto e dou uma espiadela para trás, de canto de olho, e vejo que ele, o tempo, foi-se...ou veio, não sei. Marcas? Muitas. Mas quem marca o tempo? Vinte e três de dez. Olha ele aí de novo, a marcar a passagem. O primeiro que me vem à lembrança foi o dos cinco, que chegou embrulhado num pacote lindo a esconder um caminhão de madeira, enorme, azul e muito pesado. Tenho a nítida impressão de que vim ao mundo de carona naquele caminhão. O menino de calças-curtas na boléia do pesado Mercedão azul. Tempo, tempo...quem o mede? A concretude do relógio me irrita profundamente (não param nunca aqueles ponteiros idiotas, que a todo momento me dizem que o último segundo já não é mais). E o sol passa todos os dias à mesma hora pela minha janela, jogando na minha cara que o espelho é liso e que o caminhão de madeira já não existe mais. Mas há o meu tempo, interno, a ressoar sem ponteiros. É o tempo medido por mim mesmo em infinitas e íntimas badaladas. Vinte e três de dez de mil novecentos e...não, não. Não vale a pena marcar. Dois mil e cinco é hoje, sem tempo a perder. Viva eu e meu caminhãozinho de madeira.
Falando nisso, lembrei dessa música dos Titãs:
Caras como eu Estão ficando raros Como cabelos ralos Que se batem e caem pelo chão Caras como eu Estão tirando o pé Andando em marcha-ré Com medo de entrar na contramão Como trens do interior Que não chegam no horario Como velhos elefantes Que morrem solitarios Caras como eu Estao ficando chatos Como solas de sapatos Que se gastam Com o passar do tempo
Nao vou mais medir o tempo Nao vou mais contar as horas Vou me entregar no momento Nao vou mais tentar matar o tempo
Como palavras de amor Que nao se guardam em disquetes Como segredos sem valor Que a gente nunca esquece Caras como eu Estao ficando velhos Calcando os seus chinelos Concluindo que nao ha mais tempo
Escrito por Jairo S. às 21h29
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| Quarta-feira , 19 de Outubro |
Homem de Bem

"Homem de bem". Essa é talvez a expressão mais ouvida e lida nesses tempos de referendo. "Como o homem de bem vai se defender, se o Sim ganhar?"; "Vão desarmar o homem de bem e deixar o bandido armado"... Detesto frases feitas. Já abri meu voto aqui pelo Sim (mesmo considerando esse debate sem sentido), primeiro porque eu acho que todas as armas deviam ser derretidas e virar esculturas artísticas como lembrança à imbecilidade humana, e outra porque eu nem saberia definir o que é o tal homem de bem (existe mulher de bem?). Uma idéia: alguém poderia aproveitar para publicar um daqueles testes: "Você é um homem de bem? Responda as perguntas e descubra. Se você marcou a letra A em pelo menos 10 questões, você é um homem de bem. Se responder apenas 5...cuidado ao entrar na casa de um homem de bem...ele pode estar armado e matar você para se defender". Ou então, poderiam publicar uma listinha das ações de um homem de bem e as de um "homem de mal", pra ver onde me encontro nessa disputa maniqueísta do bem contra o mal. Devo estar entre este último, pois certamente não me enquadraria no mesmo lado do garotão que pegou a arma de seu "pai de bem" e saiu para se divertir à noite. Muito menos quero ser como aquele homem de bem que sacou a arma do porta-luvas pra atirar no homem de mal que o fechou no trânsito. E o homem de bem que matou a mulher do mal que o traía? Tem aquele vizinho do bem que matou o do mal porque o cachorro deste último fez cocô na grama do primeiro. Então, não sou do tipo que defende uma sociedade onde impera a barbárie, em que todos os homens (não as mulheres) saem armados para se defender dos homens do mal que andam por aí de olho nos bens dos homens de bem. Aliás, definitivamente, não me considero um "homem de bem", porque estes votarão a favor das armas, eu não. Ah...o Thomaz Lima, aquele cantor de mantras, ele sim é o verdadeiro Homem de Bem.
De saco pra mala...
Sinto como se a correria do mundo concreto tivesse jogado um manto escuro sobre mim. Ultimamente vivo como um bombeiro a apagar incêndios (desculpem o clichezão), envolto a compromissos que assumo mesmo sabendo das dificuldades para enfrentá-los. Digo enfrentá-los porque são desafios mesmo, e ao contrário do senso comum, detesto desafios, principalmente quando o desafiado sou eu próprio. Sei que isso é ruim, pois expõe uma certa covardia, e por conta disso a vida acaba ficando menos interessante...sei lá. Acho que é a fase da preguiça que escrevi outro dia, um encosto dos brabos. Quer saber? Tô com preguiça de continuar esse post. Fui.
Escrito por Jairo S. às 21h33
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