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| Sexta-feira , 14 de Outubro |
Lagoa crespa
Fim-de-semana de trabalho. Sábado pela manhã, Vila Princesa. Domingo à tarde, Z3, cobrindo a festa do Dia da Criança organizado pelas senhoras da comunidade, e o campeonato colonial de futebol. A Z3 é realmente um lugar encantador. Mesmo quando a ida lá é rápida, eu aproveito pra respirar aquele ar da lagoa e me encantar as suas ruas simpáticas, com a imagem dos pescadores fazendo as redes, proporcionando cenas de uma plasticidade incrível, tantas vezes já retratadas por estudantes-fotógrafos da ECOS. Meus olhos não cansam de apreciar o colorido dos barcos na contraluz do entardecer. As gaivotas disputando espaço nos trapiches completam o cenário inspirador. Tem a dona Laura Matheus, que colabora desde o início do projeto e enche com palavras as casas dos pescadores. Sem falar nas delícias da Dete com seus bolinhos de peixe. E ela já prometeu colocar receitas especiais na próxima edição do Pescador. A Z3 é bela até quando o dia está cinza, como ontem, que deixou a lagoa carrancuda e bem crespa e agitada.
Seu Armando e a tecnologia

Seu Armando deve estar feliz com o avanço tecnológico da ciência moderna do terceiro milênio. O que inventam de máquinas e geringonças pra gente ter o que fazer em casa no fim-de-semana, consertando coisas, não é brinquedo. Aliás, é brinquedo sim. Descobri um brinquedinho que pode revolucionar a limpeza do jardim: um soprador que amontoa a sujeira num canto, depois suga, tritura as folhas e joga tudo em uma bolsa. O troço tem 1400 watts de potência e causa ventanias de até 180 km/h. Já pensou eu manuseando essa fábrica de tufão no meu pátio? Acho que vou preferir continuar com meu velho ancinho desdentado. Meus vizinhos certamente agradecerão. E o aparador de cerca viva? Com motor de 500 watts, esta máquina é de fácil manuseio: É necessário apertar dois gatilhos para acioná-la, dessa forma o operador fica com as duas mão ocupadas e, caso solte um dos gatilhos, imediatamente a máquina se desliga, evitando acidentes. O que pra mim é bom, já que sou o rei do choque elétrico. Mas pela cara de mau da geringonça, e pelo preço dela, vou continuar sendo Edward Mãos de Tesoura.
Escrito por Jairo S. às 21h24
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| Quinta-feira , 13 de Outubro |
Clarice e vinis

Ganhei meu dia antes dele chegar à metade. Feriado bem produtivo...do ponto de vista da ociosidade. Explico. Ao contrário de outros "dias de folga", não fiquei com a consciência pesada pelo fato de ficar em casa sem aproveitar para colocar trabalho em dia. Cheguei a pensar em levar coisas da ECOS pra casa, mas resisti e resolvi fazer...feriado. Dediquei a primeira parte do dia a mim mesmo. Depois de uma rápida caminhada até a lagoa, reli alguns contos da Clarice Lispector, e cada que fez que o faço me surpreendo com aquela escrita como se fosse a primeira vez, o primeiro contato. Separei algumas preciosidades do livro "Laços de Família":
"A manhã tornou-se uma longa tarde inflada que se tornou noite sem fundo amanhecendo inocente pela casa toda".
"E como uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu".
"Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia".
E outra, atualíssima: "o mundo era tão rico que apodrecia". Genial, contemporâneo e uma prova de que numa coisa o mundo vai pra frente: o atraso.
A leitura me inspirou a seguir, durante a tarde, a limpeza do jardim iniciada no fim-de-semana. Trabalhei bastante, mas ainda falta outro tanto. Depois, audição de vinis com doce-de-leite uruguaio (que vício de gordo), coisas antigas escolhidas pela Milene pra contrapor ao pagode que rolava em alto e bom som no pátio com a turma da Nicoli. Pode até ser saudosismo, mas escolher um LP, limpá-lo com álcool e colocá-lo no prato com a agulha exatamente em cima do início da música que se quer ouvir, tem lá seu charme. Até o chiadinho típico tem seu valor.
Mas o mundo concreto me aguarda, com suas tarefas cotidianas. C´est la vie.
Ah..resolvi aumentar a fonte do blog. Ficou melhor?
Escrito por Jairo S. às 10h07
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| Terça-feira , 11 de Outubro |
cogito, ergo sum
Perdoe-me, padre, pois pequei. Tenho cometido insistentemente um dos sete pecados capitais, e talvez o mais terrível deles: a preguiça. Ando muuiiito preguiçoso, até pra blogar. Pior é que sempre condenei os preguiçosos e agora parece que estou me transformando numa dessas escórias da sociedade. Mas acho que minha penitência não há de ser tão dura, já que minha preguiça até que tem sido produtiva. Por exemplo, gosto de deitar na rede e ficar olhando o jardim, pensando como poderia deixá-lo melhor...pô, superprodutivo. Sobre a preguiça, acabou de ser lançado o livro Devagar, de Carl Honoré. Tem uma resenha maravilhosa, do Sílio Boccanera, publicada no jornal Livros, da Bravo de agosto. O texto é uma delícia, se tiverem oportunidade, leiam. O cara diz que a preguiça pode inspirar genialidade! O que me conforta. Não que a preguiça me faça ser genial (quem dera), mas pelo menos deixa a consciência um pouco menos pesada. No texto, Boccanera lembra, ainda, de um outro escritor, o britânico Hodgkinson, que também escreveu sobre o ócio. Ele diz que Descartes só saía da cama depois de receber baldes d´água na cabeça. Ficava lá deitado, pensando, pensando. Se tivesse levantado cedo, acabaria ocupado com as tarefas diárias corriqueiras, deixando o mundo sem a famosa frase em latim que nem precisa tradução: cogito, ergo sum. Outro exemplo? Marcel Proust, que fingia doença pra ficar o dia na cama, pensando. Graças a isso, pôde escrever Em Busca do Tempo Perdido. Mas dêem uma lida no texto do Boccanera, se tiverem chance. É muito bom mesmo. Ah...eu nunca levanto tarde.
Crianças e Russo

Há exatos nove anos, mais um ídolo da minha geração dava por encerrada sua jornada por aqui. Mais um que se foi antes dos 40. Renato Russo gostava de flores. Gostava e escrevia poesias. "Aproveitava os dias de chuva", respondeu certa vez quando lhe perguntaram se foi uma criança introspectiva. Deixou muita coisa bonita. São tantas as músicas que é difícil escolher uma, então, aproveito o Dia da Criança e ponho aqui Giz, uma das mais lindas pra mim. Ele disse que fez essa música lembrando o tempo de criança, no Rio de Janeiro.
GIZ E mesmo sem te ver Acho até que estou indo bem Só apareço, por assim dizer Quando convém Aparecer ou quando quero Quando quero Desenho toda a calçada Acaba o giz, tem tijolo de construção Eu rabisco o sol que a chuva apagou Quero que saibas que me lembro Queria até que pudesses me ver És, parte ainda do que me faz forte E, pra ser honesto Só um pouquinho infeliz Mas tudo bem Tudo bem, tudo bem... Lá vem, lá vem, lá vem Acho que estou gostando de alguém E é de ti que não me esquecerei Tudo bem, tudo bem... Eu rabisco o sol que a chuva apagou Tudo bem, tudo bem... Acho que estou gostando de alguém
Tudo bem, tudo bem...
Escrito por Jairo S. às 11h07
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