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| Sexta-feira , 30 de Setembro |
Seu Armando, o gênio
Seu Armando tinha uma pequena oficina de eletrodomésticos. Era um baixinho simpático, com um bigodinho que eu, lá pelos 10 anos, achava ridículo. Eu adorava quando a mãe me pedia pra levar algum aparelho na oficina do seu Armando. Diziam que ele era o melhor técnico da cidade, e eu não cansava de ficar olhando, maravilhado, aquelas tevês desmontadas, aquele emaranhado de peças e fios jogados em cima de uma bancada desorganizada que mais parecia um cemitério de eletrodoméstico, enquanto uma carcaça aguardava, vazia, o momento de receber tudo o que lhe fora tirado pelo seu Armando. "Será que consegue colocar tudo de novo lá dentro, do jeito que tava quando saiu da loja?", perguntava eu pra mim mesmo, incrédulo. E não é que seu Armando conseguia mesmo? Coisa de gênio...
Então, quando eu chegava em casa, sorrateiramente pegava o rádio antigo da minha avó e me escondia na garagem de casa para abri-lo e ver como era por dentro. Nunca conseguia fechá-lo...daí... "Socorro seu Armando!" Claro que todo mundo ficava sabendo das minhas investidas como "técnico eletrônico". Tanto, que a minha tia Mariazinha me apelidou de "seu Armando".
Até hoje ela me chama assim. Afinal, sempre fui um desastre nas vezes em que tentei consertar coisas em casa. Pior: colocava em risco a integridade física da família quando botava na cabeça que iria consertar algum eletrodoméstico ou até mesmo ao trocar uma simples lâmpada. Coloquei os verbos no passado porque fui - injustamente, diga-se - interditado por todos lá em casa. Estou proibido de tentar consertar qualquer coisa que seja. Por isso não posso confessar aqui que sou persistente e que ainda tento, de vez em quando, consertar as coisas, claro que só faço isso depois de me certificar que estou sozinho em casa. O resultado é que tenho uma caixa enorme, cheia de peças que "sobraram" em minhas tentativas de ser gênio como seu Armando. O rádio da vó, que ficou pra mim como herança, nunca mais foi o mesmo. Virou peça de decoração, o coitado.
Perdi as contas de quantos choques já levei na vida por conta dessa minha teimosia, desse amor próprio. Sim, amor próprio, porque acho um absurdo ter que pagar para alguém vir até a minha casa instalar uma porcaria de tomada. Tá certo...às vezes eu exagero...quase botei fogo na casa uma vez por conta de uma lâmpada que deixei acesa, no assoalho de madeira, aguardando a segunda parte do conserto enquanto eu levava a Milene no pronto-socorro para cuidar das consequências de um choque que ela havia levado enquanto me auxiliava naquela aventura (óbvio que ela aceitou me ajudar só depois de eu beijar os dedos em cruz prometendo tomar todas as precauções). Mas isso é besteira, afinal, quando chegamos de volta do pronto-socorro nem fogo tinha, a madeira tava preta, saindo uma fumacinha, mas daí a dizer que quase botei fogo na casa já é exagero. Tá certo que em outra ocasião incendiei três campainhas porque tentei descobrir o motivo delas silenciarem quando alguém apertava o botão. E que quase morri eletrocutado, grudado numa enceradeira que tinha o fio todo remendado por esse seu Armando aqui. Já pensou, que vexame? "Como morreu o coitado?", perguntariam no meu velório. "Grudado numa enceradeira", teriam que reponder. E eu ali, deitado no caixão como quem não tem nada com aquilo, certamente louco pra rir daquela situação. Mas prova de que deu tudo certo é que estou aqui, vivinho, escrevendo essas aventuras. O fato é que sigo proibido de brincar de ser o genial "seu Armando".
Escrito por Jairo S. às 19h14
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| Quarta-feira , 28 de Setembro |
Propenso ao silêncio
"Não sou o silêncio que quer dizer palavras" Paulo Leminski
Então...depois de uma semaninha de revoltas internas, dores insuportáveis de ouvido, poucos filmes, nenhum livro e um acúmulo enorme de tarefas que não deslancham, resolvi voltar. Tem uma frase do Pasolini, que diz: "Detesto o silêncio nobre. Detesto também uma prosa ruim e apressada, mas é melhor uma prosa ruim e apressada do que o silêncio". Não concordo muito com isso, mas vá lá. O silêncio às vezes faz bem. Meu silêncio não chega a ser nobre, mas tem seu valor...pelo menos pra mim. Prefiro o poema do Leminsky para quem uma página branca contém a soma de todos os textos.
"Folha isenta não existe. Mesmo a mais pura areia do Saara longínquo possui uma carga de significação que o artista não pode ignorar: Nunca houve isso, uma página em branco. No fundo, todas gritam, pálidas de tanto"
Filha da mãe

Ontem foi o "Dia da MPB". Nem sabia que tinha isso...Então, viva a música brasileira (a boa música). Falando nisso, ontem vi a entrevista e apresentação da Maria Rita no Jô. Ainda não ouvi o disco novo inteiro da guria, só alguns trechos. Dá pra ver que vai na linha do primeiro, ou seja, não consegue de desvincular do fantasma da mãe-diva-estrela-tudo-a-maior-de-todas. Não acho que ela tente imitar a mãe, a coisa é genética mesmo, mas vai ser difícil ela encontrar uma personalidade própria. Ser filha, nesse caso, é uma carga muito grande. Aproveitem para fazer uma audição da Elis, em homenagem à MPB. Uma dica? "Elis Montreaux Jazz Festival". Foi lançado depois da morte, em 1982, mas é de uma atualidade criativa insuperável. A participação do Hermeto Pascoal é ontológica.
A internacional

Hoje faz exatamente 143 anos que Marx juntou a galera socialista em Londres pra fundar a Primeira Internacional, chamada "Associação Internacional dos Trabalhadores. "Algum dia a classe operária deverá tomar em suas mãos o poder político a fim de estabelecer uma nova organização do trabalho; deverá derrubar os velhos sistemas políticos que mantém vivas as velhas instituições, a menos que desejem, como os primitivos cristãos, que desprezavam e descuidavam de uma tal ação, renunciar ao reino deste mundo", disse Marx durante o discurso de abertura. Em seguida, setenciou: "A revolução deve fazer-se com solidariedade; isto nós aprendemos com a Comuna de Paris, que caiu unicamente devido a que faltou justamente esta solidariedade dos operários dos demais países."
Escrito por Jairo S. às 10h52
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