Dois quilômetros de cumplicidade
Dois quilômetros. Essa é a distância entre mim e eu mesmo. Começo o que passei a chamar de caminhada-pensante e logo nos primeiros metros percebo que não estou sozinho. Há outros caminhantes, pensantes ou não. Outras pernas que andam nesse trajeto de lugar nenhum.
Primeiros 100 metros percorridos e a mente, ainda em desordem, tenta acompanhar o ritmo dos passos, já cadenciados. O coração começa a ficar acelerado. Os pensamentos dão sinais de movimento, mas ainda na lenta.
Aos poucos, vem à lembrança um menino com sua bola na lama durante as tardes de verão. O único compromisso daquele moleque era tentar colocar a bola entre os chinelos-trave. Eis o retrato mais puro da felicidade. Chego aos 200 metros.
Os pensamentos, mais acesos e emoldurados pela paisagem da lagoa lisa e brilhante, deixam de lado o menino-lodo e cedem espaço para um jovem esquisito, escondido numa espécie de concha e que achava o mundo por demais injusto. Não conseguia entender as cenas que observava pelo buraquinho do caramujo. Algo devia estar errado com aquele mundo lá fora.
Aos 400 metros de caminhada a lagoa já não está tão lisa. Os caminhantes seguem passando por mim, sozinhos ou em duplas, trios ou grupos maiores. Mal os percebo. Alguns cães também parecem buscar seu espaço entre as figueiras copadas.
Por um instante, os pensamentos, agora perfeitamente ritmados, parecem se esvair, mas logo volta à mente o jovem, agora fora da concha e disposto a mudar aquelas cenas que antes apenas observava de dentro do apertado caramujo. Tinha ídolos, gurus e livros, onde buscava respostas a perguntas difíceis.
Quando rompo a barreira dos 800 metros, paro por alguns instantes, fito a lagoa, respiro fundo, alongo e perco da mente o rapaz sonhador. Pensei em me virar e olhar para trás, mas pra quê? Meu objetivo é chegar ao fim do trajeto, não importa que demore. Não tenho muita paciência de olhar pra trás e admirar a caminhada já percorrida. Prefiro olhar pra frente e ver que o final ainda está longe. E me conforta saber que a lagoa estará me acompanhando em cada passo. Então, sigo em frente e me aproximo da metade do percurso. Recupero o fôlego quando surgem na mente imagens confusas. Tento defini-las. Não consigo. Enxergo a mim mesmo, a contemplar a lagoa, ainda mais bela e confortante.
Quase no final do trajeto o pensamento já está a galope, mais veloz que os passos, descadenciado. Tento ganhar tempo, acelero o passo para chegar ao final e retomar lentamente o ritmo do início da jornada. Pensamentos e passos, em perfeita harmonia. Sigo em silêncio. Me vem à mente Quintana: "Não direi que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado estou, calado ficarei, Pois que a língua que falo é de outra raça".
O importante é saber que meus pés ficarão marcados para sempre no coração do calçadão da praia. São dois quilômetros de cumplicidade.
Escrito por Jairo às 10h14
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