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| Terça-feira , 13 de Maio |
Tiê-Bicudo de cera

Lendo alguns posts antigos, me deparei com um em que eu dizia que gostaria de estudar bioacústica, o estudo do canto dos pássaros. Dizia eu que deve ser interessante reconhecer as aves pelo canto. Falei do caso do ornitólogo brasileiro que ouviu um som diferente de um pássaro no meio da floresta. Nunca tinha ouvido aquele canto e resolveu pesquisar. Acampou no meio da floresta, gravou aquele som e, quando reproduziu, viu aproximar-se um tiê-bicudo, um passarinho considerado extinto há mais de 60 anos. No post eu arrematava dizendo que não basta só estudo pra conseguir uma proeza dessas. Tem que ter muita sensibilidade e pureza na alma, como diziam os antigos. E por isso, no final, eu sentenciei que isso não era atividade para alguém como eu.
Acho que não é mesmo. Estou mais para aves empalhadas. Vontade de empalhar-me e ficar observando a tudo e todos sem ser notado, ou então virar pedra como a estátua no museu a observar os olhares visitantes. Um olhar às avessas, gostaria eu. Sem ninguém perceber eu observaria a todos: gestos e palavras. Mas tinha que ser uma estátua de museu, não daquelas de praça...vai que um tiê-bicudo resolva me fazer de banheiro. Bá...acabei com o post. Tão bem que comecei... Tô dizendo que não tenho a pureza na alma como o pesquisador de bioacústica. Sou um Tiê-Bicudo de cera.
CQC
Agora voltando ao planeta terra, nesta segunda-feira vi pela primeira vez na íntegra o CQC da Band, com o Marcelo Tas no comando. Genial o programa. Acho que aquilo a gente poderia batizar de jornalismo "naif", como bloguei aqui uma vez. Algo como o jornalismo Gonzo misturado com teatro de rua. Eis aí o moderno jornalismo: cara-de-pau, irreverente e inteligente, sem apelos às baixarias como outros similares (leia-se "Pânico!").
Escrito por Jairo S. às 18h26
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| Terça-feira , 06 de Maio |


Não se assustem, caros visitantes, não troquei as palavras pelos números e continuo sendo um "zero" à esquerda, à direita e ao meio em termos de Matemática. Aliás, cada vez mais estou certo de minha teoria de que ninguém é capaz de entender uma fórmula matemática, seja ela qual for. Pra mim tudo faz parte de um grande acordo entre todos os que trabalham com números: eles mentem uns aos outros que aquela sequência de números e símbolos fazem algum sentido e que aquilo serve pra alguma coisa. Não, não...impossível aquilo fazer algum sentido. Se bem que em algumas fórmulas e equações, entre um número e outro, aparecem umas letrinhas. Acho q foi uma tentativa de humanizar a Matemática.
Bueno, mas fiz todo esse nariz de cera só pra comentar aquela formulazinha ali no título, que, dizem, é do tal "efeito borboleta": quando uma borboleta aparece num em determinado lugar, pode provocar um furacão no lado de lá do mundo, e que esse furacão talvez fosse apenas uma leve brisa se a borboleta resolvesse não voar naquele dia. Frase antiga que se tornou popular e que eu gosto pela frase em si, não pelo significado físico ou matemático do troço. Gosto pela presença da borboleta e suas asas coloridas. Ela, a borboleta que espremeu-se num esforço borboletal para se libertar do casulo e poder voar por aí, enfeitando o dia. Ela criou asas pra isso, não pra fazer furacões aqui ou ali do outro lado do mundo.
Agora, sinceramente, me digam se aquilo ali no título tem alguma semelhança com uma inofensiva borboleta? Borboleta não parece um número nem quando é apenas um casulo feio. Portanto, não as culpem pelas catástrofes!!
Escrito por Jairo S. às 10h11
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| Sábado , 03 de Maio |
Non, ce n´est pas fini

Palavras são apenas palavras. Ao vento, talvez. Mas o vento é fraco, então as palavras tendem a cair logo ali, pertinho. Podemos catá-las e usá-las como quisermos, ou deixá-las por aí, bem quietinhas, a espera da ventania da primavera. É o absurdo da vida a ser descoberto.
Uma vez escrevi isso e retomo agora porque lembrei que estamos em maio de 2008. Há exatos 40 anos, jovens franceses resolveram sacudir o tapete do mundo chato em que viviam e decretaram: “tá na hora de acelerar a história”. E foram às ruas. E tomaram as palavras, que voaram do tapete imundo para ressoarem por aí, por todos os cantos. Uma espécie de caleidoscópio a refletir seus fachos de luz e anunciar a luta por uma tal liberdade que quase ninguém conhecia. Era a efervecência em todos seus sentidos: pensamento, cultural, político, sexual.. Maio de 68 virou emblema, virou tese, livro, filme e muito mais. Virou a cabeça de muita gente. Pro bem, pro mal, pro mais ou menos. Virou lembrança.
Sim, acho que o maio de 68 pode ser considerado uma ode à palavra. Sei, sei que entre um cartaz e outro muitos carros foram incendiados, e que além de palavras, voaram muitos paralelepípedos, mas temos que considerar também que houve uma ação coletiva através da palavra, e isso foi o que ficou, o que ainda ressoa por aí. Do tapete sacudido, voaram frases como “decreto o estado de felicidade permanente”, “sejam realistas, exijam o impossível”, “acabareis todos por morrer de conforto”, “tenho algo a dizer mas não sei o quê”, “a poesia está nas ruas”, “não me libertem, eu me encarrego disso”, “a barricada fecha a rua mas abre caminho”...e por aí vai. E todas elas dispostas em cartazes feitos à mão, sem nenhuma preocupação estética. Mesmo assim, a originalidade superou qualquer tentativa de calar aquela gurizada. Pelo contrário, quem calou foi De Gaulle, degolado pelas palavras...suas e as que voaram do tapete podre. Realmente, não foi o fim, mas o começo de algo ainda a ser pensado.
Escrito por Jairo S. às 10h50
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| Segunda-feira , 28 de Abril |
O padre Mary Poppins

Há dias que to querendo comentar sobre o tal padre voador, aquele dos balões coloridos, que tentou dar uma de Mary Poppins e se deu mal. Faltou tempo e sobrou exposição por aí sobre o assunto. Sei que o negócio já tá saindo da pauta, mas vou comentar mesmo assim. Até porque é um tema imperdível pra ser explorado e dá margens a variadas abordagens: religiosas, trágicas, cômicas... A imaginação pode voar junto com o padre e seus balões festivos. Juntando tudo, o que temos é um misto de fé-festa-tragédia. E todos os lados já foram exaustivamente explorados. Da piada pronta à seriedade religiosa, até charge eletrônica. Ele queria chamar a atenção e conseguiu, a mensagem de fé virou piada, virou comida de tubarão, virou santidade, virou o barco. O youtube tá cheio de videozinhos debochando; na Igreja, uns estão indignados, outros enaltecendo. Já falaram em imperícia, irresponsabilidade, mau-exemplo... Então, se já falaram tudo, por que diabos (ops) estou eu aqui tentando escrever algo sobre isso, só porque envolve um padre que sumiu (subiu) no céu amarrado a uma centena de balões coloridos e porque isso dá pano prum belo post, bastando pra isso amarrar uma palavra na outra, tal os balões do padre, e voar na imaginação até onde o vento levar. É.. não rolou o post. Ah, vão se catar. Fui. Promento melhorar no próximo.
Escrito por Jairo S. às 11h50
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| Quinta-feira , 17 de Abril |
Mundo-Homem

Por favor, não chamem isso de mundo cão. Os cães não merecem. No mundo dos latidos e das pulgas, ninguém se pega a tapa pra comprar cueca usada de traficante e muito menos joga criancinha indefesa pela janela. Esse é o mundo-homem mesmo, fielmente traduzido pela mídia. Digo isso porque me apavoro quando ligo a TV e vejo ali cenas explícitas de humanismo (no sentido inverso ao significado original da palavra), com homens (!) cometendo barbaridades e a imprensa transformando tudo em espetáculo. O reality show agora é o bolão do crime hediondo: todos apostam em alguma teoria, todos querem interagir, todos gostariam de ter acompanhado cada passo dado pela família Nardoni na fatídica noite, inclusive o momento culminante da queda. Todos gostariam de ver a cena ao vivo, mas como não podem, especulam e vibram com cada palavra dos personagens envolvidos. O mundo gira, gira e pára diante do fato-show. Acabou o jantar. Silêncio na sala, o mundo-homem vai entrar ao vivo. Em seguida vem a sobremesa.
Mas de tudo que vi sobre o caso, nada me assustou mais do que o programa da Gimenez (Super Pop). Reproduziram no palco detalhes da cena do crime, com maquetes, bonecos, pegadas e, pasmem, uma rede de proteção que - pasmem ainda mais - foi cortada ao vivo com uma tesoura por um "jornalista" que tentava provar sua tese sobre caso. A sequência do programa é ainda mais doentia e representativa do mundo-homem. A apresentadora interrompe o jornalista para o merchandising: entra cena um bando de gurias de mini-saia rebolando diante de um carro que será sorteado em instantes. Definitivamente, não sou desse planeta. Ou sou, sei lá. Prefiro mil vezes o mundo-cão. A letra do Perl Jam diz muito...
DO THE EVOLUTION
Eu estou a frente Eu sou o homem Eu sou o primeiro mamífero a usar calças Eu estou em paz com minha luxúria Eu posso matar pois em Deus eu confio, yeah É a evolução, baby
Eu sou uma besta Eu sou o homem Comprando ações no dia da quebra, yeah No frouxo, eu sou um caminhão Todas as colinas rolantes, eu irei aplanar todas elas, yeah É comportamento de rebanho, uh huh É a evolução baby
Me admire, admire meu lar Admire meu filho, ele é meu clone Yeah yeah, yeah yeah Esta terra é minha, esta terra é livre Eu faço o que eu quiser, irresponsavelmente É a evolução, baby
Eu sou um ladrão Eu sou um mentiroso Esta é minha igreja, eu canto no coro Aleluia, Aleluia
Me admire, admire meu lar Admire minha música, aqui estão minhas roupas Porque nós conhecemos Apetite por banquete noturno Esses índios ignorantes não tem nada comigo Nada, por que? Porque é a evolução, baby!
Eu estou a frente, Eu sou avançado, Eu sou o primeiro mamífero a fazer planos, yeah Eu rastejei pela terra, mas agora eu estou alto 2010, assista isso ir para o fogo É a evolução, baby! É a evolução, baby! Faça a evolução Venha Venha, venha
Escrito por Jairo S. às 10h49
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